pergamo_editado-1

Ai! Lancei as minhas redes aos mares deles para apanhar peixes,

mas tão só pesquei a cabeça de um deus antigo. Assim deu o mar

uma pedra ao faminto. E os próprios poetas parecem vir do mar.

[Assim falou Zaratustra| Nietzche]

i

Ah no Pérgamon as cabeças não se movem. Brancas, arenosas, pétreas. Zeus tem os olhos fixos brilhando para um futuro que não virá. Porque as cabeças de Pérgamon deixaram para trás um corpo perdido. Esses corpos foram encontrados e agora estão ali. São muitos pedaços como atores de um teatro pós-apocalíptico.

Primeiro o escavador descobriu alguns torsos e mãos. Depois vieram as pernas, os pés e muitos braços. Fragmentos vivos na memória de mutilações e guerras. Brilham agora como destroços no grande parque de corpos dependurados. Um amontoado de corpos sem ossos. Sem nervos. Gloriosos, expõem-se como puzzles, encaixes na tentativa de provar que foram corpos íntegros. Corpos com carne. Por isso se desorganizaram e brotam das paredes como fissuras sem agonia. Exibem-se. São raízes subindo, descendo sua nudez decepada. Seu sexo clássico. Suas cabeças degoladas. Suas cabeleiras espessas. Suas mãos inúteis e pés cristãos.

ii

Para descrever esses corpos é preciso uma fração de segundo. Deuses se transformam. Não se repetem em sua luta para sobreviver. Já são sobreviventes. Porque não sobreviveram. E flutuam sem memória alguma. Dispersaram-se. São entulhos do pós-guerra. Corpos desenterrados que o capim não cobriu. E por isso a desordem. E enquanto morrem os animais esses corpos flutuam. São corpos sem peso que testemunham as nossas lembranças. Sem espasmsos. Silenciosamente. Sem nenhuma dor.

iii

Um zumbido pancrônico anuncia: os deuses chegaram. Aparelhados agora são corpos em movimento. Antena nos dedos, nadam como peixes no grande aquário humano. As máscaras, os músculos, brilham nas paredes do túnel. Vasculham a área. Ideogramas brilham sob o anúncio. A forma: uma papoula? Azul. Klein. Um blues sequer não há nem god save the queen. Nem pássaros. Mas os flashes estalam sobre os corpos. Coxas. Ruídos. Noé embriagado. Luz e trevas. Um braço de fiberglass. As sibilas e os profetas apontam para o céu. A terra arde numa festa de corpos.

Publicado em Hiperconexões: realidade expandida | volume2 | Org. Luiz Brás, 2014

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foto urban

paredes

prateleiras

armários

paisagens

linhas de um horizonte

arabescos íntimos. Como não imaginá-la

a casa – esse corpo sentimental?

paredes vazias

revelam a outra casa que se esconde atrás dessa

a verdadeira pele da casa

na imperfeição de seu relevo

revelação de si mesma

última página

derradeira casca da cebola

alvejada por uma rajada de balas cegas

Um front. Paredes em silêncio

marcas

vestígios de guerras

corpos irregulares

espaço nulo

buracos escavados. Talvez recordem

o dia em que você acordou feliz

e dançou um samba na sala

depois de um gin tônica

se não me engano. A música

e o olhar para as grandes janelas

voltadas para um mar de outras janelas

mar de pequenas luzes

sirenes

sinos

alardes de crianças ao anoitecer.

Agora os móveis perfurados

desfeitos

desarmados

o outro lado das coisas

o inútil. Vistas de um ponto

atrás do palco

onde a entrada é proibida ao público

pedaços de avesso

escombros inacabados

improvisos. Restos de madeira

de uma antiga demolição

sem nexo e sem passado

que chegarão ao novo destino

sujos, encharcados pela chuva

que sem aviso cairá sobre o caminhão de mudança.

 A casa

agora vazia de objetos e risos

cala com seus segredos entre as frestas

na perda de reflexo do velho espelho. E o teu riso

sem que ninguém perceba

surgirá do nada

como um guarda-chuva esquecido há anos

para desaparecer outra vez

como o cão que segue um rosto anônimo

e some sem deixar vestígios

por uma rua

desconhecida e luminosa

                                                                                         jussara salazar| imagem joão urban

antonio filho

a cidade e o colecionador de peles

i

Vejo-te cidade a partir daqui. Enquanto a outra ondula sob o sol escancarado na esfera do dia que se vai. Um barco desapareceu fora do horizonte. Como um pêndulo oscila sua mis-en-scene? ou mis-en-plis que se dobra sobre as ondas, ode às sereias, carma. O oriente é depois da curva. E a cidade cospe a todos como um escarro. Imprecações ao Senhor. Desilusões. Al- racif-muralha, és a flor d’água, o estorvo, empata-foda, um corpo perdido. Calçada marítima não tens sequer profundidade enquanto abrigas o rapaz punhetando atrás de teus corais num domingo de praia alegre.

Vejo-te sob a linha do dique que é/foi um corpo submerso. Zênite que suspende as pedras e apara as cascas de crustáceos que os coreanos atiram pelas janelas enquanto trepam nos beliches de algum apart entre o décimo ou vigésimo de uma das torres.

Vejo-te mas calo. E não falarei sobre a chuva que ontem apagou a fumaça das fogueiras encharcando as ruas lotadas de turistas zanzando subindo, descendo seus corpitchos no navio desproporcional que se aproximava e se afastava roubando e devolvendo a geometria pesada da exatidão das pedras sujas do cais.

Monstro marítimo ele arrastava o corpo pesado, aquele navio, simulando uma falsa solidão enquanto o convés fervia abarrotado de turistas mexicanos que no breakfast desdobravam, entre risinhos, seus mapas de papel fino. Faziam planos para uma próxima invasão à tarde. Uma visita ao planetário? Aqui não há um planetário? Queixa-se a moça atrás dos óculos de aro vermelho.

Aqui não há planetários. Mas putas e tubarões rondam o navio.

Um close reading expõe uma quantidade de corpos, um falso bloco de nudistas, algaravias noturnas sob um azul violento que se divide em fatias cortadas com esmero bajo el sol de una faca cabralina – o mar azul, o céu azul – duas lâminas, duas medidas. Uma só cicatriz. A cidade.

Não falarei das algas marinhas exalando sua podridão ou de como o contorno de banhistas perdidos com suas silhuetas anônimas desaparecerão no horizonte como minúsculos insetos com seus dólares falsos trocados no câmbio negro. Alegria planejada. Entre as manobras do prático as redes hoje vão capturar uma colheita magra de peixes e algumas carcaças humanas abandonadas por algum predador marítimo.

Não falarei da cidade. Direi ao mar: os teus peixes morrem. Mas o mar não escutará e moverá as negras ondas as negras mãos líquidas que não gesticulam mas gritam palavras desconhecidas em línguas diabolicamente estranhas.

Não falarei enquanto falo ao mar. E ouço nomes que se assemelham ao teu nome. O querubim de olhos engraçados e sem um braço repete também o teu nome. Como um mantra, uma loa, um poema monótono, um poema bélico.

Não falarei sobre a dúvida ou as bifurcações impossíveis das quadras em forma de triângulo que se amontoam nas ruas de um bairro sujo e distante do porto. As pequenas ondas lentas e mornas se acinzentam com a chuva monótona de junho sob o barulho inaudível que se escuta. Mas também não falarei das ondas. Nunca as ondas roçando o teu torso macio de anjo, cidade michê vagando sem rumo, mutilada, boiando e apodrecendo nesse vaivém das águas.

ii

O navio se foi enquanto a mulher aguardava na fila do supermercado. Como um cão vadio ela guarda a noite e espera as portas se abrirem para escapar ao amanhecer. A cidade é esse cão vadio e agoniado que vaga sem rumo pelas ruas e aguarda palavras de amor num hotel barato. Debaixo da pele debaixo da roupa além da pele o corpo marcado da cidade aguarda.

A pele da cidade é um mapa. Cada parte da cidade é sua marca, uma cicatriz, um vestígio assombrado. Aquela mulher não sabe que o colecionador de peles está tão próximo. Ela, como a cidade, aguarda em cada esquina com seu corpo coberto de tatuagens e histórias.

Hoje as águas do canal invadiram a avenida. Aquela mulher é guido anselmi escapando. Fugindo pelo teto do carro para voar sobre a cidade. Fugindo dos vivos fugindo dos mortos presos atrás do vidro dos carros. Aquela mulher é um fellini. Um animal em retirada enquanto a procissão do Senhor morto atravessa.

O relógio está quebrado e o tempo ainda não sabe que toda beleza servirá apenas para recordar o garoto da noite anterior. As águas do canal baixaram. Debaixo da pele, debaixo da roupa além da pele o corpo daquela mulher aguarda. A cidade é o cão do poeta. A cidade está nua.

[jussara salazar | publicado em RECIFE E OUTRAS PARTES BAIXAS DO CORPO | 2014 | img. antonio filho]

FRIDA pbfrida pretofrida arte>

FK.

esse amor intolerável
minha deusa asteca
estridente e silenciosa delicadeza
vulcão popocatépetl
a saia de serpentes
as mãos feridas sangrentas
o broche impuro
um abutre feminino corpo
torturado sob atavios
as jóias antigas de coatlicue
em meio às sedas braceletes
círios de uma procissão
de corpos partidos oh parsifal
ecoa nas fitas de tua saia imperfeita
anáguas sussurrantes
asas de uma borboleta escura
voejando ruídos no templo vazio
em meioà quietude
numa mata de yucatán