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Arquivo mensal: janeiro 2014

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Desceu a rua

ligeiro apressava o passo

pelo caminho

fugia da solidão da tarde

depois que soterraram

as pedras seculares

e só o doido ficou ali

na cadeira de plástico

vigiando o dia do juízo final

o doido

entre frases desconexas e ships

depois que o mundo

afundou 30 cm debaixo no piche

o mundo adormeceu

o mundo emparedou

as pedras desapareceram

e já não há mais rua

mas a solidão não sabe

e ajusta o disparador automático

sorri e clica antes de mergulhar

numa nuvem de tags

por isso ele apressou o passo

seguiu pelo caminho

fugindo

da solidão da tarde

 

 

[jussara salazar | img. black square. malevich]]

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I

“Um dia, há muito tempo, dei com uma fotografia do último irmão de Napoleão, Jerônimo [1852]. Eu me disse então, com um espanto que jamais pude reduzir: Vejo os olhos que viram o Imperador.”

É desse modo que um Barthes solitário, em A câmara clara, percorre sua última e ontológica viagem em busca de si mesmo, “a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões”. O esquecimento ocupa as brechas, apaga as marcas, me afasta do meu duplo. É preciso fechar os olhos para “ver”, é necessário desabitar-se para me acercar do outro. [Quem podia guiar-me?]

Uma fotografia, corpos, paisagens, rostos.

A imagem esquiva-se, perde-se na desordem e se repete para nunca mais repetir-se, ocorre apenas uma vez. O outro da fotografia procura através do véu que se coloca entre ele, sujeito infantil, e o mundo, essa memória transparente e diáfana, o seu vai-e-vem no envoltório vivo da exterioridade. Ou tudo não passa de simulação?

Aceito a repetição desse universal, a vidraça tautológica que, convertida em espelho me devolve como uma superfície dupla, duas interfaces, uma é opacidade ao fundo em contraposição a outra, luminar.

Teimo em existir, paisagem de mim, âmago e essência aderente como o vidro e a paisagem, enquanto a desordem é a marca que carrego [acomodo a vista] e que, como corpo me guia; vou, e como um cão, cumpro meu rito, contorno o espelho.

Nada, nenhum desejo sociológico. Serei para sempre o corpo desejante, “cientificamente” sozinho e desarmado em meu desconforto, o desconforto que ele, o sujeito Barthes, empreende entre duas linguagens, duas interfaces, ver e ser-visto.

Ao meu reino [“a antiga soberania do eu”] digo: Eis-me. Eis-me no retorno do morto, naquele que olha, naquele que se vê. Posando serei então a metáfora do imaginário. Nasço, a partir de agora me arrisco, capturado por um outro, não como na pintura [em sua sutil miniaturização, sua “textura moral fina”] mas como natureza viva que passa, móbile movente. Ver-se a si próprio é recente. Como escutar-se.

Um eu habita as profundezas e o abismo fora de mim.

Moi, o “advento de mim”, sujeito e atributo, sintaxe do me. A vida privada é uma zona de e para mim entre o espaço e o tempo, uma ferida aberta e patética. [No fundo, o que encaro na foto que tiram de mim, é a Morte]: é o eidos dessa Foto.

II

Curitiba, estranha cidade.

Decifrá-la requer certa sabedoria de alcova, sussurrada por amantes em dia de chuva, como um segredo, um anseio nebuloso que ocupa os cafés, os ônibus, cinemas, praças e lares. Um afã discreto, em Curitiba tudo quer ser discreto, mas é estridente, porque anseia e teima em fingir que ninguém e nada existe. “Curitiba é como a cidade de O Show de Truman”, sentenciou Decio Pignatari.

Curitiba, a estranha. Somos estranhos, eu a estranha.

Às 4 subo a Amintas e dobro a Ubaldino, lá está a casa da esquina do outro lado da rua. Como um hábito antigo todos sabem quem é o morador, como um pacto público e secreto. Sobressalto.

Hoje o homem de óculos escuros no dia cinzento, boné e roupa cáqui segura um envelope branco, enquanto de costas fecha a porta da casa de maneira discreta e disfarçada. Vira-se, busca algum olhar intruso, posso vê-lo de frente atravessando a rua em minha direção. Em poucos segundos uma avalanche de pensamentos. “Vejo os olhos que viram o Imperador”. Ele, invisível como a sua Curitiba.

Cruzamos, anônimos. Sinto a força de sua invisibilidade.

Não há palavras, não há gesto nem abraço que interrompa a cumplicidade de seu pacto com a cidade.

Só o silêncio. O sinal abre, ele se vai, segue pela faixa de pedestres. Já um pouco afastado da casa parecia sentir-se mais à vontade, caminha com mais leveza, talvez acredite estar a salvo de algum olhar. Escapara mais uma vez, é provável que haja pensado sentindo-se livre para caminhar pelas ruas de Curitiba sob o seu melhor disfarce, o de Dalton Trevisan.

Fiz a fotografia. Caminhando, lá se foi ele, oculto, decidido, o Vampiro em meio à tarde.

Eu, disfarçada de ninguém. Leitora clandestina [“O que posso nomear não pode, na realidade, me ferir. A impotência para nomear é um bom sintoma de distúrbio”]. Kafka responde: “Fotografam-se coisas para expulsá-las do espírito. Minhas histórias são uma maneira de fechar os olhos”.

Eu sigo como se nada houvesse acontecido, estou invisível.

III

Outro dia numa esquina da cidade aquele fantasma do Raskólnikov me matou. Machadinha embaixo do sobretudo, numa esquina iluminada do centro. “Isso foi”. Hoje, enquanto dobrava a esquina pensei: o fantasma de Raskólnikov sou eu. A verdade é louca, fecho o livro.

 

 

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Ah no Pérgamon as cabeças não se movem. Brancas, arenosas, pétreas. Zeus tem olhos fixos e brilhantes para um futuro que não virá. Porque as cabeças de Pérgamon deixaram para trás um corpo perdido. Esses corpos foram encontrados e agora estão ali. São muitos pedaços como atores de um teatro pós-apocalíptico. Primeiro o escavador descobriu alguns torsos e mãos. Depois vieram as pernas, os pés e muitos braços. Fragmentos vivos na memória de mutilações e guerras. Agora brilham como destroços no grande parque de corpos dependurados. Um amontoado de corpos sem ossos. Gloriosos expõem-se como puzzles, encaixes na tentativa de provar que foram corpos íntegros. Corpos com carne. Por isso se desorganizaram e brotam das paredes como fissuras sem agonia. Exibem-se, rizomas, subindo e descendo sua nudez decepada. Seu sexo clássico. Suas cabeças degoladas. Suas mãos inúteis e pés cristãos.

 

[jussara salazar|berlin, 2012]

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 morrissey

 

Apenas leia o meu diário e em nova York use óculos escuros. Lia avisou pelo telefone lá do queens. Disse use óculos escuros no metrô no central p. & na quinta av. Na B.H. em wall street no moma na victoria’s secret. Na casa do V. Cruz todos usam óculos escuros. Em nova York pronuncie s=t=a=r  b=u=c=k=s. Sorria para os ratos da pen’station e repita I’m so sorry como o camarada Morrissey grunhindo why ho-ho-ho ha-ha em Fairmount. Porque quase sem perceber nós envelhecemos. Eu e ele cantarolando suedhead nas manhãs geladas de um aeroporto qualquer de nova York ou tanto faz. Porque quanto vidro tanto quanto lixo. Atrás dos óculos vi o metrô apagar as luzes e o cara pronunciar um inglês bizarro. Não como no termini de Roma – próxima fermata uscita lado sinistro – a voz metálica. Ah fellini ah Marcelo. Ah camarada Morrissey, da banheira branca você me olha melancólico. Lê seu Byron de capa vermelha e james dean jaz. Ah mi nova York você escureceu sem mim. Tão cedo às 4 da tarde. Na esquina da “walk c/ a don’t walk”

tão brutalmente a vida doçura

você e eu  

quando os animais corriam

pelo campo

antes do rio fugir

[e a dureza do sol]

deixando a

secura do barro

deitar seu ciclo

na cama do não rio

 

agora sou um centauro

e depois do estio

nada haverá

sobre o campo

 

te digo isso doçura

tão delicadamente

a cicatriz no corpo

o rio sob o sol

as frutas podres

vão deixando pra trás

o cheiro adocicado

de um céu absoluto

azul vazio e bruto

 

[Jussara Salazar]

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  adriana varejão