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Arquivo mensal: dezembro 2013

 

Descobri Gonçalo Tavares numa livraria do Chiado em Lisboa. O escritor angolano já era o autor de uma interessante obra. Tempo, memória ou lógica, entre reflexões filosóficas e referências à literatura, recheiam seus livros. Chama a atenção, em especial um fragmento de Biblioteca [Campos das Letras, Portugal, 2004] em que o autor adverte no prefácio: “o ponto de partida deste livro é a obra dos autores – nunca aspectos biográficos. […] Agrada-me a ideia de que alguém possa ler alguns fragmentos hoje e outros daqui a alguns anos”.

 

Biblioteca funciona como um jogo de leitura, à maneira de Cortázar em O jogo da amarelinha, podendo o leitor pular páginas, ir e vir, cúmplice daquela geografia de planos narrativos e não-lineares, no limite do “horror à linha reta” a que se refere José Paulo Paes, em um texto sobre o escritor irlandês do século XVIII Laurence Sterne. No livro o fragmento Georges Bataille é um dos que mais gosto, pelo tom profético e também provocativo:

 

“Abrindo um rato ao meio não encontrarás uma biblioteca. Mas abrindo um homem ao meio também não encontrarás bibliotecas. Pode enjoar-te o organismo, as fezes e o líquido viscoso, mas é na lama que se fazem filhos e por vezes combates de galos. Os pequenos porcos são ainda bebês. A inteligência não é o segundo lado da felicidade, mas também não é o segundo lado da tristeza. Em termos de alegria e de tristeza a inteligência é o terceiro absolutamente excluído.”

 

“Abrindo um rato ao meio não encontrarás uma biblioteca”

 

Guardo o fragmento em minha memória, a contradição me inquieta. A escatologia da dissecação assim legitimada em sua negação salva e desmancha o acaso, oferecendo-nos generosa criação e criatura em um só corpo, e como um exercício de ergometria do imaginativo evoca o turbilhão de possibilidades que é a invenção.

 

“Abrindo um rato ao meio não encontrarás uma biblioteca.”

 

Parto primeiramente da existência de um rato, a memória me cerca: há uma prática experimental de abrir ratos, ok? Cobaia-objeto de experiência, esse rato foi aberto ao meio e não existiam bibliotecas dentro dele. Afinal, qualquer um sabe que abrindo um rato [qualquer] não encontraremos nenhuma biblioteca. Não conhecemos bibliotecas que tenham sido encontradas dentro de ratos [sim, esse é nosso paradoxo] porém tranquiliza-me saber da íntima afinidade entre ratos e bibliotecas.

 

Uma ação pressupõe a não realização de outra. Se abrirmos um rato ao meio, não encontraremos uma biblioteca. “Abrindo” instaura uma espessura que me avisa de que algo já aconteceu,que uma experiência repousa latente e antecipa o resultado do acontecimento/não acontecimento. Confirma que alguém já abriu um rato e adverte sobre a impossibilidade de encontrar bibliotecas dentro do mesmo. Mas a negação me divide, afinal há duas tarefas: abrir e encontrar. Na primeira agregam-se os elementos abrir/rato e na segunda encontrar/biblioteca, ambos coerentes em sua relação, porém impossíveis no contexto objetivo em que o não encontrarás [bibliotecas] sugere uma suposta finalidade afirmada por antecipação de sentido, definido previamente. Podemos, partindo de nossa experiência, inferir primeiramente que se pode abrir um rato ao meio e que podemos encontrar bibliotecas: as duas afirmações possuem coerência definida universalmente.

 

A contraditória possibilidade [abrir o rato ao meio] e a impossibilidade [encontrar bibliotecas dentro do rato] resolvem-se na inversão lógica: Existem ratos dentro de bibliotecas, pois a percepção do mundo nos indica que bibliotecas são muito maiores que um rato e, portanto, impossíveis de serem encontradas em seu interior.Além disso há a tradição semântica a determinar que ratos e bibliotecas são afins – ratos gostam de roer papel e pessoas que gostam de bibliotecas são os ratos de biblioteca. Alcanço agora o princípio das máximas subvertendo a ordem e o sentido: “Abrindo uma biblioteca ao meio provavelmente encontrarás ratos”.  Suspensa a realidade,sou pura literariedade, sou o real em sua pureza. O jogo dos contrários é o meu jogo e ainda evoca a tradição histórica postulada pela analogia bíblica dos mandamentos: não encontrarás!

 

Concluo a admissão da realidade semântica na afirmação da impossibilidade, a tal particularização do sentido na lógica do discurso: Não faças experiências [abrir ratos ao meio] que não encontrarás o saber ou a história [textos, livros, bibliotecas] ou um não perca tempo buscando [sentido de inutilidade] onde não será possível. Do ponto de vista simbólico paira sobre mim um você até pode abrir um rato ao meio e encontrar uma biblioteca, e partir daí a possibilidade ficcional atinge o limite da ironia no conselho implícito: chega de experiências, não é fazendo isso que encontrarás aquilo que buscas. O mesmo simbolismo concebe bibliotecas como órgãos, vísceras de um rato aberto ao meio [os livros:suposta matéria interiorizada; natureza versus cultura, história e criação] no jogo ficcional lúdico e filosofante em que o saber habita a mais íntima parte de nós mesmos. Idealizo: abrindo bibliotecas encontrarás homens e ratos.

 

O acordo social da língua e da verossimilhança legitima, joga, dispõe, seja no contexto social ou individual, para estabelecer os pontos de funcionamento, comunicativo ou criativo, das múltiplas e infinitas possibilidades de falar e escrever. Um texto, como objeto de traços universais, possibilita a análise de seus princípios lógicos inerentes ao lugar de origem da língua como meio e finalidade maior que se insere no contexto geral daquele que fala e de seu “outro” que escuta.

 

Alteridade-individualidade. As relações com o mundo movem a língua e a literatura em sua forma de conhecimento geral possibilitando também distinguir particularidades, delicadezas, sutilezas ou ideias nem tão sutis, que apreendemos a partir da noção de que “algo” trata-se de um texto literário e não de outra coisa, e esse “algo” que apreciamos transforma e redimensiona nosso olhar.

 

O texto, com suas partes mais estruturais e mínimas nos permitirá sempre definir os níveis em que se situa; suas implicações, variantes, contradições e pressupostos em sua ordem gramatical, significativaou…selvagem. Podemos dizer que a interpretação de um texto, ou de um pequeno fragmento de texto, que seja apenas sua primeira sentença, permite-nos alcançar determinado sentido de maneira ampla e universal, comum e aplicável a todos, em direção a uma série de particularidades singulares pertencentes ao infinito processo de funcionamento que a língua e a criação nos possibilitam na festa maior que se chama literatura.

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